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Violência obstétrica. Coisas que ninguém te conta

Começo esse POST com amargas lembranças dos meus três partos.

O que caracteriza violência obstétrica? Tratamento humilhante, agressões verbais, recusa de atendimento, privação de acompanhante, realização de intervenções e procedimentos médicos não necessários são alguns dos itens dessa longa lista.

Uma em cada quatro mulheres já sofreram violência obstétrica.

Violência obstétrica. O nome assusta, e com razão. Embora nem todas conheçam sobre o assunto, muitas já foram vítimas desse tipo de agressão, que pode ser física ou verbal. Isso tanto no parto, como também no pré natal. Isso é muito triste. E sério… Fique atenta sempre. Até mesmo aos pequenos sinais.

Normalmente acontece quando os interesses do profissional de saúde ou da instituição são colocados acima dos direitos da paciente”, explica Raquel Marques, diretora-presidente da Artemis, ONG que visa melhorar a qualidade de vida e erradicar todas as formas de violência contra a mulher.

São xingamentos, recusa de atendimento, realização de intervenções e procedimentos médicos não necessários, como exames de toque a todo instante, grandes episiotomias ou cesáreas desnecessárias. Isso só para citar alguns dos exemplos dessa enorme lista.

“Há várias situações, como a cesariana sem indicação clínica. Às vezes, acontece uma violência psicológica junto – a equipe ameaça, diz que se a mulher ‘não colaborar’ ela e o filho vão morrer… Há uma linha muito tênue. Eventualmente, se a mulher se coloca contra um procedimento, ela realmente pode correr risco de vida, mas esse tipo de argumento costuma ser usado de maneira equivocada, como pressão”, pondera Raquel.

Até mesmo a separação do bebê saudável e da mãe no pós parto pode ser considerada uma forma de violência obstétrica. Assim como ter a entrada de um companhante barrada no trabalho de parto ou não receber analgesia quando solicitada.

No meu primeiro parto, depois de vinte e quatro horas em trabalho de parto, muita, muita dor. Muito cansaço. Eu tive a analgesia negada e uma episiotomia sem meu conhecimento realizada. Mas então, naquele momento, assim como não se falava em Doulas, também não se houvia sobre violência obstétrica e o que caracterizava uma. Pra mim, a analgesia não era recomendada em partos normais e a episiotomia era de extrema importância e necessidade para ajudar o bebê a sair.

No segundo parto, os mesmos erros cometidos no primeiro se repetiram. Além de tudo aquilo, minha atenção era chamada a todo instante durante o pré parto e na hora do parto por uma enfermeira muito da mal educada e mal amada. Despreparada, apesar de toda sua idade. Primeiro que comecei a sentir as dores de madrugada (atrapalhei as horas de sono). Como eu não tinha o acompanhamento de uma Doula, nesse caso, quem me acompanhava, era a tal enfermeira. Eu não podia nem expressar como eu sentia dor naquele momento. E na época, eu tinha várias colegas que se chamavam Natália. Assim se chamava a médica obstetra que faria o meu parto .. por vezes ao me dirigir para a médica, eu a chamava apenas de “Natália”. A mesma não se ofendia. Mas a enfermeira chata pra caramba, gritava comigo e me exigia que eu a chamasse de “Dra. Natália”. 🤦

Já no terceiro parto, foi mais sério. O médico que eu havia escolhido para me acompanhar no pré natal, foi escolhido também para realizar o parto.

Primeiro que ele já havia colocado no meu cartão de pré natal, a data do parto. Sem mesmo eu pedir. Então conversamos e eu lhe disse que a minha vontade era tentar o parto normal e que se por ventura fosse no fim, uma cesariana, que nós só faríamos quando o bebê desse sinal de que estava pronto para vir ao mundo. Nada de agendar o nascimento de ninguém! Concordamos e tudo ficou bem durante às quarenta semanas.

No dia primeiro de dezembro, a tarde, comecei a sentir dores leves. Então aguardei em casa, pois eu já estava familiarizada com a dor e já sabia que não precisava sair correndo para a maternidade.

Naquele dia, meu marido faria sua última prova da faculdade de Direito. Foram cinco anos! E a única coisa que eu precisava era aguentar até que ele terminasse a prova. E assim, o fiz!

Às dez e quinze da noite, liguei pra minha sogra e quando estávamos saindo, meu marido acabara de chegar da sua então, última prova 🙏

Quando chegamos na maternidade, a enfermeira me encaminhou para o quarto, quarto esse que fazia parte de um pacote de parto particular, pagamos na época dois mil e vinte reais. Meu primeiro parto particular. Os outros dois foram realizados pelo SUS. Fui pro quarto, a enfermeira entrou e me examinou. Nisso ela me explicou que o bebê não estaria encaixado. Com medo, muito medo, eu solicitei então que fizéssemos uma cesariana. Ela então entrou em contato com o médico e explicou a situação e disse que eu queria a cesárea.

Todo o pré parto foi feito pela enfermeira, eu não tive contato com o meu médico até entrar na sala de parto. Pelo que vi, ele ficou aborrecido porque no final eu escolhi a cesariana e o tirei do seu confortável lar tarde da noite, para fazer uma coisa que ele já havia agendado para duas semanas atrás, às oito horas da manhã.

Ele não se dirigiu a mim, não autorizou que meu marido me acompanhasse e por fim, fiquei separada do meu recém nascido por quarenta minutos sem motivo algum. Foi o pior parto da vida! Eu sofri uma depressão pós-parto, onde eu somente chorava e não me sentia feliz.

 A discussão é importante porque, ainda hoje, muitas mulheres continuam sendo vítimas de violência justamente no momento em que estão mais vulneráveis. 

O direito de ter um acompanhante está assegurado pela Lei 11.108, que existe desde 2005. Mesmo assim, ainda há vários hospitais que continuam não permitindo a entrada e afirmam não ter condição de receber esse acompanhante. “Esse tipo de instituição nem deveria estar aberta, porque não atende os requisitos da lei. A mulher tem direito à livre escolha de quem vai acompanhá-la. Pode ser homem ou mulher. Barrar o acompanhante já é uma forma de violência, porque é um direito sendo negado”, explica Raquel.

Fique atenta até mesmo aos pequenos sinais.

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